quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Finalmente um desabafo - hard week

Semanário 3
Semana de 26 a 29 de Setembro de 2011

            Esta nova semana correu bem, apesar de ser um desafio muito mais complexo que o da semana anterior, particularmente, foi uma semana que jogou mais com o meu lado psicológico e emocional. Sou uma pessoa que adora desafios e posso afirmar que esta doente era um desafio mental para mim.
            Eu costumo afirmar que me assusta muito o futuro, relativamente à minha saúde e à forma como a morte se irá apresentar, assusta-me cair numa cama, dependente de toda a gente para tudo, sem ser capaz de fazer as coisas que neste momento tenho como garantidas, pegar num copo e beber água, tomar banho sozinha, falar. Para mim, não falar é terrível, sempre fui uma pessoa extremamente comunicativa, sinto que falo através de todas as células do meu corpo, não falar para mim conseguiria ser o meu pior tormento.
            Nesta semana a minha doente é tudo o que eu tenho pavor de me tornar no futuro! Dai ser um desafio mental! A minha doente é mulher dependente em grau (muito) elevado em todas as AVDS, é afásica e tem 92 anos!
            No ensino clínico já tinha tido doentes com estas características mas que não me tinha sentido desta maneira, eu penso que é pelo facto de a doente ser mulher, revejo mais a possibilidade dum futuro assim numa doente do que num doente, eu vejo as coisas por este prisma, talvez seja uma forma errada de ver as coisas, mas quando é num homem não sinto as coisas como numa mulher!
            Consegui trabalhar as minhas emoções, o que foi talvez o ponto mais alto na minha semana, gerir o medo, o pavor, e cuidar da doente como gostava que cuidassem de mim, apesar de ser afásica eu descobri que a minha doente era de Espinho, a minha cidade, então decidi falar com ela, porque apesar de afásica eu sabia que a minha doente me entendia, porque se durante o banho eu lhe dizia «feche os olhinhos» e a doente fechava, entre outras situações eu acho que tambem entendia quando eu lhe falava do nosso mar, das ruas, das nossas praias, da feira. O futuro ninguém o sabe e eu não posso viver com medo, o meu papel não é rever-me nos doentes, mas caso isso aconteça, tudo o que tenho de fazer, é tentar tornar-lhes (como a qualquer outro doente) os dias o mais agradáveis possíveis, desde proporcionar conforto, como ate um sorriso, quando me sorriem eu sinto que o dia pode correr bem, logo acho que sorrir a um doente é também um incentivo, uma forma de tentar mostrar de que tudo vai correr bem, e no vazio e frio de uma enfermaria, um sorriso é algo muito bom de se receber. Senti que superei um grande desafio o que será muito bom em termos do resto do ensino clínico, quer nos próximos ensinos clínicos, quer quando entrar para o mercado de trabalho.
            Esta semana tambem foi uma semana muito dedicada a úlceras de pressão, assisti a muitos cuidados a úlceras, quer da minha doente, quer de outros doentes do serviço, era algo com que ainda não me tinha deparado na pratica, porque tudo é muito lindo na teoria, tudo parece muito fácil de lidar quando vemos nos livros, mas quando nos deparamos com situações dessas na pratica é chocante, toda aquela mistura de tecidos, os cheiros, tudo é algo que tem um impacto em nós. Eu talvez por ser a mais nova do grupo tenha mais susceptibilidade para estas coisas e algo que me impressiona é a fragilidade do corpo humano, porque nos meus meros 20anos sinto que o corpo devia de acompanhar o que o nosso cérebro diz, pensa e quer fazer, só que nestes doentes o corpo muitas vezes não acompanha o que a cabeça diz, há doentes com úlceras de categoria 4 que falam muito bem e que estão orientados mas que o corpo não aguentou, cedeu, o corpo devia de ser como a carapaça da tartaruga e apenas ceder quando a nossa cabeça não consegue mais, para mim isto entristece-me, talvez esse devesse ser o meu maior objectivo neste estagio, aprender a lidar com as minhas emoções, perante as situações, apesar de manter a minha atitude se manter fico impressionada e depois tenho de lidar com elas.
            Esta semana algaliei, isto foi o auge da minha quarta-feira, apesar de ansiosa e nervosa com o procedimento, senti-me muito bem, primeiro por ter conseguido manter a assepsia do procedimento, depois pela facilidade com que algaliei, e depois foi aquela emoção de fazer pela primeira vez, correr tudo bem, foi emocionalmente motivador, porque tenho muitos receios de errar, mas não é por isso que me afasto de fazer as coisas, pelo contrário, eu quero fazer, quero aprender, quero descobrir mais, quero ter oportunidade de errar ou de acertar, mas aprender com a experiencia, a vida é uma lição do qual todos somos alunos, portanto todos os dias temos hipóteses de aprender e eu gosto disso. Alem de que passar de algaliações em manequins para algaliações em pessoas, no campo, é algo que realmente achei fascina.
            Relativamente ao serviço e à equipa é bom sentir que nos chamam para ajudar, para observarmos procedimentos, é compensador isso, eu sinto isso como realmente um incentivo, que estamos a fazer um bom trabalho.
            Voltando à fragilidade do corpo humano, assisti aos cuidados post-mortem de um doente, o que tambem foi uma novidade, senti-me desconfortável durante todo o procedimento, primeiro porque o doente tinha morrido, e a morte ainda me transtorna um pouco, existe uma frase que nos diz que a morte não existe e a vida é um mero pensamento do que gostávamos de ser, mas eu não acredito nisso, o que nos fazemos define-nos enquanto pessoas, mas na morte somos todos iguais, todos acabamos enrolados num lençol o que para mim foi algo que me marcou e algo que ainda tenho de digerir porque ainda acabou de acontecer à cerca de meia dúzia de horas.
Como acho que provei esta foi uma semana que vivi rodeada de emoções, acho que tentei dar o meu melhor e provar o meu valor, dei «o litro» para tentar que tudo corresse bem!
            Os problemas levantados anteriormente como a privacidade do doente tem sido aspectos melhorados, tal como a gestão do tempo, mas relativamente ao factor Mariana-Ansiosa ainda não consegui lidar com isso, mas estou a tentar melhorar, estou satisfeita com a evolução do estágio e com a minha evolução. Continuo a achar que tenho muitas lacunas que tenho de compensar com muito estudo e trabalho de casa, porque agora sim temos de colmatar todas as dúvidas, para sabermos porque procedemos das mais diversas maneiras às diferentes situações, porque afinal toda a gente aprende a fazer, mas nem todos conseguem raciocinar os motivos das coisas e é nesse aspecto que nós temos de provar que somos capazes, mas tambem sei que tenho alguns conhecimentos que me são úteis e sei o quão essencial é colmatar as lacunas, porque o conhecimento é essencial.
            Em suma, nas próximas semanas há que estudar e colmatar as lacunas de raciocínio, melhorar em todos os aspectos, sem nunca desvalorizar aspectos como a privacidade e o Eu pessoal do doente. Também tenho de lidar com todas as emoções e abstrair-me um pouco, sem ser fria como é o estigma do enfermeiro (errado! O enfermeiro não é alguém frio, se assim fosse não seria capaz de tratar de pessoas que precisam) mas sim ganhar defesas pessoais perante as situações e sem duvida, relaxar, manter a calma e reduzir a ansiedade, porque o objectivo deste ensino clínico não é provocar-me um AVC, nem um Enfarte.



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Saudações Negras

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